Historiador: Para tomar caminho do bem, autoridades devem ouvir o Papa

“Espera-se que os governantes de todo o mundo ouçam o bom senso, a concretude e a visão previdente do Santo Padre”, afirma o historiador Agostino Giovagnoli sobre o mundo pós-pandemia

Da redação, com Vatican News

Na sua missa matinal na Casa Santa Marta, o Papa dedica, todos os dias, suas intenções para um determinado tema. Nesta segunda-feira, 20, suas intenções foram direcionadas ao mundo da política. Repetindo Paulo VI, Francisco sublinhou que “a política é uma elevada forma de alta caridade”, e rezou pelos partidos políticos dos vários países, para procurarem juntos o bem do país e não o bem do próprio partido. Um chamado fundamental, como sublinha o historiador, Agostino Giovagnoli, professor de História contemporânea na Universidade Católica de Milão.

“Neste período, o Papa falou de modo direto sobre várias questões. Agora, tocou o assunto sobre o problema dos que governam, dos políticos, e aqui aborda um importante problema, porque a pandemia colheu boa parte do mundo muito desequilibrado, do ponto de vista político. Um mundo que se encaminha para uma relação que privilegia a busca de consenso eleitoral de modo exagerado. O próprio fenômeno do populismo é um fenômeno que se conecta com essa atenção”, alertou.

Para Giovagnoli, é notório que a pandemia precisa de políticos com outro tipo de atenção: pede que sejam tomadas decisões rápidas considerando as competências – fato este não muito comum nos últimos tempos – e, às vezes, até mesmo medidas impopulares. “Confirmando isso, pode-se ver nas decisões de isolamento social que são sujeitas a protestos em muitas situações”. Confira a entrevista:

Recentemente, o Papa rezou pelos governantes, pensando no fim da pandemia para que – como disse – encontrem o caminho certo sempre em favor dos povos e, explicando, com clareza, que a aposta será ou pela vida e a ressurreição dos povos, ou será pelo deus dinheiro: voltar à sepultura da fome, da escravidão, das guerras, das fábricas de armas, das crianças sem escolas. Então, são esses os dois caminhos que se colocam diante da humanidade?

Giovagnoli: Os dois caminhos são as alternativas deste momento. É raro que, na história, existam momentos nos quais se encontrem dilemas tão distintos. Papa Francisco teve a capacidade de entender que este momento é um dilema histórico que se apresenta diante dos governantes e, obviamente, dos povos. Encontra-se entre o caminho de uma reconstrução que cuide do bem comum, do interesse coletivo, que não seja apenas interesse de uma nação, porque a pandemia relançou a realidade de um mundo cada vez mais interdependente e globalizado. E deve ser considerado que a atenção pelos pobres deve ser parte integrante deste projeto pelo bem comum e, por outro lado, há o deus dinheiro, diz o Papa Francisco, uma lógica de interesses particulares, fragmentados e conflituais entre eles, e isso não é conveniente neste momento. Por exemplo, mesmo as organizações internacionais: agora é momento de relançá-las, estimulá-las e não criar polêmicas. Parece-me que as indicações do Papa Francisco, assim como a tarefa dada ao Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral de fazer propostas para o pós-pandemia, devem ser em uma determinada direção, e espera-se que os governantes de todo o mundo ouçam o bom senso, a concretude e a visão previdente do Santo Padre.

O ponto da questão parece se situar nas conexões entre os Estados e as pessoas individualmente. Por exemplo, a volta ao trabalho dos pais e os filhos com as escolas fechadas, o desemprego e a ajuda dos governos para manter a família. Também as condições dos idosos e das pessoas com deficiências. Uma visão sistêmica é central?

Giovagnoli: Creio que sim. As visões sistêmicas são muito importantes quando se trata realizar obras muito complexas. Penso nas medidas depois da Segunda Guerra Mundial quando o mundo partiu com uma visão sistêmica. Penso na ONU, no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional, ou seja, uma série de estruturas internacionais que delineavam o mundo como queriam para o pós-guerra.

Naturalmente, as visões sistêmicas não se improvisam, e isso é um problema, porque aqui se trata de tomar rapidamente muitas decisões em uma situação complexa e, portanto, considerar os interesses que são também conflituais entre eles, e isso é muito difícil, somente com uma perspectiva muito clara pode-se proceder. Se não há uma visão sistêmica, é preciso, ao menos, contar com diretrizes as quais não se possa absolutamente se abster e sobre as quais realizar uma partilha mais larga possível. Por outro lado, há o problema da boa vontade. É claro que nos encontraremos diante de muitos obstáculos, que nos levarão a decisões, também a erros – obviamente isso deve ser levado em conta – portanto, algo que será corrigido à medida que acontece, com muita rapidez. A rapidez só existe se há uma abundância de boa vontade, que permita enfrentar decisões imprevistas, permita corrigir erros, permita ir além dos problemas, das dificuldades burocráticas, enfim, de tudo o que pode atrasar a facilidade de um caminho que é muito importante.

Deve ser considerado também o sustento dos pobres de todo o mundo…

Giovagnoli: A pandemia cria desemprego, cria pobreza. Pode-se ver a realidade da assistência, por exemplo, no voluntariado católico, que atende famílias que antes tinham situações de vida bastante normais, mas, agora, ao contrário, devem recorrer aos centros de assistência, aos refeitórios, pedir sustento. Também há o aspecto internacional desse problema. É claro que, em outros países não europeus, esse problema é ainda mais forte, é dramático. Falo, infelizmente, da pandemia na América Latina que está se espalhando rapidamente, um pouco menos na África, pelo menos até agora. Não se pode aceitar que, depois da pandemia, seja a pobreza a causa de outras vítimas.

Fonte: Canção Nova

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